A bolha e um braço partido

A título profissional, 2023 foi um ano francamente bom. Mas também um ano estranho. Francamente bom porque pude continuar a levar a biblioterapia a todo o país, os Açores incluídos, e aos mais variados públicos; porque tive a oportunidade de divulgar a biblioterapia praticada em Portugal no primeiro Fórum de Biblioterapia no Brasil; mas, acima de tudo, porque pude atingir um grande objectivo, do qual vos falarei em breve. Por outro lado, foi um ano estranho porque para concretizar esse objectivo, para viver essa alegria, tive de me recolher numa muito necessária bolha, recusar propostas de trabalho, abdicar de tempo com a família e os amigos e sacrificar o Verão, que eu tanto adoro.

Cheguei à segunda quinzena de Dezembro muito cansada e quis a vida, na sua infinita ironia, que eu partisse o braço direito nas vésperas do Natal, para que descansasse alguma coisa. Por isso só agora, mês e meio após o pequeno acidente, venho finalmente fazer o balanço das minhas leituras de 2023, tarefa que deixei a meio quando me engessaram e imobilizaram o braço e a mão.

Ao organizar as capas dos livros que li e que exponho em baixo, confirmei duas estreias: primeiro, ultrapassei a fasquia dos 80 livros lidos num ano (apesar da bolha a que o tal objectivo me confinou); segundo, nunca antes, na minha vida de leitora adulta, a literatura infantojuvenil fora o género por mim mais consumido (36 títulos). A quase totalidade destes livros veio ao meu encontro por intermédio da Bertrand Livreiros, que todas as semanas me entregou uma lista de novidades literárias para que as analisasse e redigisse as bulas biblioterapêuticas que podem consultar aqui. Porque ao longo do ano foi dado particular relevo à literatura infantojuvenil, pude ler mais de três dezenas de títulos pensados para este público, mas onde encontro sempre material de excelente qualidade para trabalhar, de forma pertinente e eficaz, com os meus clientes adolescente e/ou adultos. Mais do que livros infantojuvenis, estes são livros:

PARA TODAS AS IDADES

Nesta categoria, os meus cinco livro preferidos foram: “A cor do vazio”, de John Dougherty e Thomas Docherty, pelo foco — em quadros de perda, saudade ou luto — na valorização das memórias felizes construídas com as pessoas que nos fazem falta; “O teu corpo é teu”, de Lucía Serrano, por estimular uma comunicação clara e assertiva sobre o corpo, defender o direito à privacidade e dar enorme relevância ao papel do consentimento; “O menino com flores no cabelo”, de Jarvi, porque emana uma dose massiva de gentileza, carinho, compaixão e alegria; “Obrigado, avó Omu!”, de Oge Mora, poderoso no combate ao egoísmo e à avareza e ao restabelecimento da boa disposição; e “Uma criança é uma criança é uma criança”, por ser tão acutilante no apontar das perguntas muito parvas que são feitas entre miúdos e aos miúdos e por mostrar alternativas tão mais atenciosas (e óbvias!).

FICÇÃO

No domínio da ficção, lidos 26 títulos, as minhas preferências foram para: “Natureza Urbana”, de Joana Bértholo, um manifesto em forma de conto, que aborda temas que me são tão caros: a cegueira humana perante a natureza e a violência que constituiu a criação e o abate sistemático de animais para a nossa alimentação; “Um cão no meio do caminho”, de Isabela Figueiredo, que a par da exploração da natureza pelo homem, denuncia a exploração do homem pelo homem, o capitalismo selvagem, o consumo desgovernado, a desumanização e a coragem que exige viver repudiando tudo isso; “Ernestina”, de José Rentes de Carvalho, uma descrição emotiva do que é adolescer e despertar para o mundo complexo e implacável dos adultos, hoje como há 80 anos; “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati, que foi directo a um dos meus maiores medos: ter o discernimento toldado pela voracidade do tempo e o comodismo das rotinas, e perceber tarde demais que a vida foi consumida em vão; e “Shuggie Bain”, de Douglas Stuart, uma daquelas histórias que me fez recordar a cada página que até para nascer é preciso ter sorte e que é fundamental aprender que o amor filial não tem de ser incondicional, nem amparar os golpes infligidos pelos abusos.

NÃO FICÇÃO

Finalmente, no que diz respeito às leituras de não ficção, dos 20 títulos que escolhi ler, estes foram os que mais apreciei: “M Train”, de Patti Smith, que emana sageza e me transmitiu uma enorme paz, apesar das inquietações da autora, com as quais me identifiquei tanto; “L’usure d’un monde”, de François-Henri Désérable, cujas palavras eu poderia ter escrito, porque o autor viu e sentiu o que eu vi e senti nas minhas idas ao Irão; “A ditadura da felicidade”, de Edgar Cabanas e Eva Illouz, perfeito para entender a origem do sentimento de zanga que dominou o meu ano (ando muito zangada com o estado do mundo e suspeito que esse estado não se vai alterar em 2024…), enquadrá-lo e dar-lhe valor, porque a zanga importa, a zanga é mobilizadora; “Um quarto só seu”, de Virginia Woolf, lúcido, acutilante, actual e tão pertinente e útil quanto há quase cem anos, quando foi publicado pela primeira vez, para pensar e actuar em prol da igualdade entre mulheres e homens; e “Elogio da palavra”, de Lamberto Maffei, que me permitiu consolidar conhecimento sobre o quanto é importante o domínio de uma linguagem falada rica — um vocabulário pobre faz um pobre cidadão e a fome da palavra assemelha-se à sede: nem sempre a sabemos identificar e quando damos por nós, a desidratação, tal como a alienação, pôs a nossa vida em risco.

A seguir, partilho todos os outros títulos que li e que também contribuíram para a construção de boas memórias literárias em 2023. E vocês, já leram algum destes livros? De quais gostaram mais e porquê? Gostaria muito de ler os vossos comentários.

Obrigada, bom ano e boas leituras!

OS OUTROS LIVROS

4 thoughts on “A bolha e um braço partido

    1. Olá, Alexandra! Obrigada pelo seu feedback. 🙂 Gosto imenso da escrita da Leïla Slimani. E em Portugal tem uma excelente tradutora, a Tânia Ganho, que garante a qualidade literária do texto. Eu li tudo o que ela tem publicado em Portugal, excepto “O Perfume das Flores à Noite”, que não é um texto de ficção. Tenho de tratar disso. 😀

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  1. Olá Sandra,

    Gosto sempre muito dos seus textos de balanço das leituras do ano que passou :-).

    Até hoje não li qualquer livro dos que refere. De facto, em 2023 li menos do que noutros anos. As razões foram várias, estão identificadas e estou a trabalhar para contrariá-las, ou não fosse a leitura algo que me faz ser uma pessoa melhor.

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