Da poesia do essencial ao essencial da biblioterapia

Esta crónica foi originalmente publicada no n.º 11 da Revista Palavrar. O mote desta edição — a poesia do essencial — foi o pretexto para reflectir sobre os caminhos da prática biblioterapêutica, à medida que o interesse pela biblioterapia se dissemina no país e vão surgindo novos praticantes/profissionais. Ser biblioterapeuta não é só dinamizar sessões de biblioterapia. Importa, e muito!, reflectir sobre a prática a cada passo e produzir conhecimento com bases sérias e alicerçado no muito que outros investigadores e especialistas já nos legaram. Esta área do conhecimento em Portugal é relativamente recente e frágil. Tem de ser manuseada com cuidado para não perder a credibilidade.

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Uma das experiências estéticas mais fortes que vivi no último ano e meio aconteceu com a leitura de um pequeno poema, um haiku, escrito por José Tolentino de Mendonça:

Existo sem pressa

Maturo em lides e demoras

Aprendo a incompletude[1]

Este punhado de palavras precisas e desafetadas, postas em três versos límpidos e fluídos, desata-me um nó que trago não sei onde, lava-me como o primeiro banho de mar no Verão, permite-me expandir os pulmões com uma longa golfada de ar com cheiro a floresta, relaxar os músculos tensos dos maxilares, da cervical e dos ombros, e libertar-me das angústias que arrasto há muito — a voragem do tempo, o frenesi inescapável, a glorificação do cansaço, a impossibilidade de ser tudo e de tudo fazer. A cada releitura apaziguo-me e reajusto o meu caminho.

Murmuro este poema como um mantra. Escrevo-o no início de cada entrada do meu diário intermitente. Ofereço-o a quem participa nas minhas actividades de biblioterapia e, depois de dito em voz alta, remeto-me ao silêncio à espera de reacções — sem orientações taxativas, sobretudo sem propostas de interpretação, revisão ou análise, porque a biblioterapia não é isso, a biblioterapia não é um exercício de exegese literária. A biblioterapia acontece no domínio da experiência estética (das perceções, das sensações, das emoções e dos sentimentos), da receção existencial e subjetiva, da reação visceral, da total liberdade de relação e expressão, e, apenas se necessário, das perguntas simples para instigar o diálogo: onde, no corpo, sentiste este poema? Que memória suscitou? Que imagens espoletou na tua mente? Como dialoga ele com a tua experiência de vida? Em quem te faz pensar?

Talvez para o poeta a escrita destes versos tenha sido catártica e se sinta orgulhoso do resultado alcançado. Talvez tenha impregnado o poema de uma intenção, para orientar os possíveis leitores num certo caminho. Ou talvez não. Talvez os versos resultem apenas de um rasgo de inspiração ou, pelo contrário, de muitas horas de trabalho para eliminar o supérfluo e expor o indispensável acerca de um estado de alma, pondo no mundo a poesia do essencial, sem outros planos ou agendas. Quem sabe? Uma coisa é certa, à prática biblioterapêutica e ao biblioterapeuta, deontologicamente comprometido, isso pouco ou nada deve importar — a poesia, aliás todas as histórias que, independentemente da sua forma e do seu suporte, constituem um bom material terapêutico são aquelas que vêm livres das amarras da análise, são aquelas que nos atravessam e transformam, tanto ao biblioterapeuta como a qualquer leitor, sem que seja preciso seguir um manual de instruções que as explique.

Em biblioterapia, as histórias são objetos de receção, não de autoridade. Esta distinção é tão fundamental para a prática quanto a necessidade, creio, de se distinguir a mediação da história pelo biblioterapeuta da autoria da história, particularmente quando o biblioterapeuta também é autor. A ética da prática biblioterapêutica em Portugal está por fazer, mas quando for definida seria bom que este ponto a integrasse e deixasse o alerta: quando o biblioterapeuta recomenda os seus próprios textos como terapêuticos, é necessária toda a prudência. E seria recomendável que essa prudência abrangesse a tentação de agregar a esses textos linhas de análise que condicionem a experiência do leitor. Em biblioterapia não analisamos: escutamos, questionamos, acolhemos e dialogamos.

Talvez não caiba ao biblioterapeuta, que também é autor, definir de forma explícita o tipo de experiência de leitura que as suas próprias histórias proporcionam, nem dissecar a sua própria imagética ou antecipar as emoções que pretende induzir no leitor. Do mesmo modo, poderá ser mais fecundo evitar a explicitação dos temas, bem como a justificação do narrador, sobretudo quando este se aproxima da própria figura do biblioterapeuta. Uma presença autorreferencial mais marcada pode deslocar o foco para o biblioterapeuta, quando, idealmente, esse foco pertence ao leitor, às histórias e às relações entre ambos. Poderá também interferir com o espaço transacional entre leitor e história — o espaço que o biblioterapeuta é chamado a sustentar com abertura e neutralidade —, assim como com a distância estética, que favorece a possibilidade de as palavras comoverem e transformarem o leitor. Não se trata de interditar em absoluto que o biblioterapeuta recomende os seus próprios textos como terapêuticos (embora apele, de novo, à máxima cautela se se enveredar por este caminho), mas sim de evitar colonizar a experiência do leitor e de outros biblioterapeutas, de condicionar a abertura da sua leitura e da sua experiência subjetiva à autoridade interpretativa de quem o escreveu.

É preferível que o biblioterapeuta constitua a sua farmácia literária a partir das histórias dos outros, das histórias feitas das palavras dos outros, feitas da matéria que é própria dos outros porque só assim sairá de si mesmo, transcender-se-á, abrir-se-á ao novo, ao diferente, ao inusitado, às perspectivas nunca antes ponderadas. E através desse exercício de alteridade, voltar a si mesmo sendo já outro. Um biblioterapeuta que não vive esta experiência extraordinária não saberá proporcioná-la aos demais. De que serve, a quem precisa de cuidado, que um biblioterapeuta gire em torno das suas próprias palavras? E entrarão para a farmácia literária do biblioterapeuta, sensível a estas questões éticas e deontológicas, aquelas histórias que — intencionalmente pesquisadas ou encontradas por acaso —, antes de tudo o mais (antes da teoria da literatura, da crítica literária, do ensaio académico ou da análise), o tocaram e comoveram profundamente, mesmo que às vezes não saiba explicar exactamente porquê. É aí, nessa inexplicabilidade que o essencial da biblioterapia começa.

[1] Em A papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2013

A resposta a muitos pedidos

CURSO ESGOTADO (actualização 10.09.2026) | Agradeço, a todas as pessoas que se inscreveram, pela confiança no meu trabalho. Ficamos com uma lista de espera. Novas datas serão anunciadas. Mantenham-se atenta/os ao blogue d’ A Biblioterapeuta e às redes sociais.

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Em 2026, celebro 10 anos de dedicação exclusiva à biblioterapia.

Uma década a criar pontes entre a literatura, a leitura, as histórias, as pessoas e o cuidado, para promover a saúde e o bem-estar. Uma década durante a qual — para além de todas as atividades desenvolvidas (nas bibliotecas, nas escolas, nas empresas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nos retiros de leitura, nos festivais de literatura e nas mais variadas conferências e congressos), dos conteúdos produzidos (bulas literárias, artigos e livros), e do acompanhamento de clientes individuais — nunca deixei de estudar e de aprender, porque só assim posso garantir a idoneidade, a qualidade e a seriedade do meu trabalho (razão pela qual frequento já o segundo ano do Programa Doutoral em Estudos Literários da Universidade de Aveiro; o detalhe do meu currículo actualizado pode ser consultado aqui).

Aprecebi-me, por estes dias, que não dinamizo desde 2022 um curso de introdução à biblioterapia. Na voragem de todas as outras solicitações, compromissos e responsabilidades, fui respondendo a pedidos de informação sobre as minhas formações explicando, uma e outra vez, que estava sem disponibilidade. Mas neste ano de anivresário redondo, impõe-se retomar o curso, agora revisto, actualizado e aumentado — não só em função dos conhecimentos que adquiri, mas acima de tudo em função da experiência prática que acumulei no terreno.

Devido ao meu doutoramento e aos compromissos profissionais, esta será a única formação que darei em 2026. E, francamente, com a exigência da investigação académica, não sei quando voltarei a ter disponibilidade para abrir um curso neste formato. A seguir, detalho o calendário, os horários e o conteúdo do curso, desenhado a pensar em quem trabalha (em horário pós-laboral) e estruturado para proporcionar as bases teóricas e práticas da biblioterapia.  

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Datas: 2, 4, 6, 9, 11, 13 e 17

Horário: 20h30 – 22h30

Formato Online via Zoom, com sessões totalmente síncronas

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Introdução aos conceitos base e enquadramento histórico.

Conteúdos:

1) O que é a biblioterapia

2) Tipos de biblioterapia

3) Evolução histórica da biblioterapia

Funcionamento, bases neurocientíficas e impacto da biblioterapia

Conteúdos:

4) Componentes do método biblioterapêutico e seu funcionamento

5) Biblioterapia e Neurociência

6) Eficácia e benefícios da biblioterapia

Curadoria e seleção de histórias

Conteúdos:

7) A escolha dos materiais biblioterapêuticos

Bastidores e realidade do terreno

Conteúdos:

8) A minha prática biblioterapêutica

A biblioterapia na prática: dinâmica de grupo

Conteúdos:

9) Círculo de biblioterapia (a biblioterapia na prática)

Encerramento

Conteúdos:

10) Apresentação e discussão dos trabalhos pedidos aos formandos

“Café com a Biblioterapeuta”: duas horas extra dedicadas exclusivamente ao esclarecimento de dúvidas, reflexões práticas e conversa livre, sem a pressão de uma agenda curricular.

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💶 PREÇOS E INSCRIÇÕES

Valor Regular: 210€

Inscrições antecipadas até 30 de Setembro de 2026: 190€

As vagas são limitadas a 12 lugares, para garantir a proximidade e a qualidade da partilha no grupo. 🔗 Garanta o seu lugar aqui: abiblioterapeuta@gmail.com

Obrigada e até breve!

Sandra

Um diálogo com histórias orientais

No próximo dia 9 de Maio, entre as 10h e as 13h, no Museu do Oriente em Lisboa, dinamizarei um Círculo de Biblioterapia a partir de histórias chinesas e japonesas. Pela natureza dos Círculos de Biblioterapia, as vagas são limitadas. As inscrições estão abertas aqui: https://bit.ly/417u1ms.

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Assumidamente extemporânea

O ano foi marcado por mais umas voltas ao país para a promoção da biblioterapia e a dinamização de muitas dezenas de actividades biblioterapêuticas com públicos de todas as idades; pela presença nos media, que não esmoreceu e conseguiu, até, ser superior à de 2024 no seguimento do lançamento do meu livro Ler para viver – Como a biblioterapia pode melhorar as nossas vidas; pela renovação das sessões de Biblioterapia Criativa no Hospital Magalhães Lemos para o período 2025/2026, que era um dos meus grandes objectivos profissionais; pela ida ao 2.º Congresso Europeu de Biblio/Poesia Terapia, desta vez na Universidade de Jyväskylä, na Finlândia; e pelo ingresso, em Setembro, no Programa Doutoral em Estudos Literários da Universidade de Aveiro, cujas exigências no 1.º semestre explicam o meu atraso na publicação deste habitual balanço.

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BIBLIOTERAPIA | O requinte do inacabado*

“A biblioterapia procura essencialmente (…) permitir ao Homem escapar a um encarceramento do destino (…) procura sistematicamente sair de qualquer enclausuramento fatal (…).”

Marc-Alain Ouaknin em “Bibliothérapie: lire c’est guérire”

Admito nunca ter pensado na biblioterapia exactamente nestes termos mas, perante o desafio proposto para esta edição da Palavrar, ouso afirmar, poeticamente, que a prática biblioterapêutica se alicerça com requinte sobre dois pilares inacabados — as histórias e o ser humano.

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O que aconteceu em Março e Abril

Este ano, a Semana da Leitura, uma iniciativa do Plano Nacional de Leitura, dividiu-se entre o último dia de Março e os primeiros dias de Abril. Na prática, acabou por contaminar, na melhor acepção do termo, estes dois meses, tendo muitos municípios, bibliotecas municipais e escolares e outras entidades aproveitado tanto Março, como Abril para celebrar localmente os livros e os leitores, também à boleia do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor (assinalado a 23 de Abril). E eu fui convidada a participar em muitas dessas celebrações, o que me fez muito feliz.

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O que aconteceu em Fevereiro

O mês mais curto do ano é para mim, de há vinte e cinco anos a esta parte, o mês das magnólias em flor. Creio que nunca tinha dado verdadeira atenção a estas árvores lindas, antes de vir viver para a área do Porto. Tenho, até, identificadas as minhas magnólias favoritas na cidade: a que fica na Praça da Liberdade e tem flores brancas; e uma, em particular, das três magnólias que ficam na lateral da igreja da Trindade, que tem flores cor-de-rosa. Ano após ano, é mais forte do que eu — fotografo-as sempre.

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BIBLIOTERAPIA | Diz-me o que ouves*

Defendo que não existe biblioterapia sem diálogo — entre o leitor e a história que lê, ouve narrada ou vê dramatizada; do leitor consigo mesmo, num exercício de introspecção suscitado pela história; e entre o biblioterapeuta e todos os participantes no processo biblioterapêutico, para reflectir em conjunto sobre a história com a qual interagiram.

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O que aconteceu em Janeiro

Não gosto do Inverno e sei que o mês de Janeiro apanha por tabela. Suporto Dezembro por causa do Natal e da passagem de ano, embora a minha tolerância aos exageros do espírito festivo — demasiadas solicitações, demasiadas compras (muitas desnecessárias), demasiado ruído real e metafórico, uma certa obrigação de estar-se alegre — tenha vindo a diminuir. Mas adoro a noite da consoada e o dia de Natal com a família. Por isso, vivo o último mês do ano com o foco nesses momentos. A passagem de ano é sempre uma ocasião para balanços, introspecções e algumas promessas realistas feitas a mim mesma, um ritual esperançoso a que me tenho afeiçoado. Depois, chega Janeiro, árido, sombrio, frio e chato, associado, na minha psique, ao esforço do recomeço — vamos lá, empurrar esta pedra, de novo, um mês de cada vez, até ao topo da montanha!

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