Contributos da Biblioterapia para a Cidadania

Biblioterapia. Uma palavra que tem tanto de antigo como de novo.

Para nós, portugueses, é um neologismo. Porém, o termo em Inglês, “bibliotherapy”, foi cunhado em 1916 nos Estados Unidos da América.

Com esta proposta, arrojada para a época, fazia-se incidir sobre um processo ancestral, intuitivo e aparentemente simples, uma luz que confirmou um fenómeno multidisciplinar, interdisciplinar e complexo. Mas, ironicamente, o termo — que junta duas palavras de origem grega: bíblion/livro e therapeia/terapia —  pode ser redutor.

Interpretada de forma literal, a Biblioterapia remete para uma forma de tratamento com livros ou através dos livros. Porém, sabemos hoje que esta arte é muito mais abrangente. A Biblioterapia não começou a fazer o seu caminho com a invenção da escrita ou, mais tarde, do livro. A Biblioterapia deu os primeiros passos com o advento da linguagem.

Falar de Biblioterapia é falar constantemente da dialéctica entre saúde e humanização.

Na pré-História, o conhecimento que resultava de toda a experiência humana já era passado oralmente de geração em geração. Os mitos (e mais tarde as lendas e os contos), desempenharam desde então um papel preponderante na vida dos seres humanos, providenciando orientação, respostas, consolo, alívio, mas também reforçando a observância das regras para a vida em comum, dando alento para atingir objectivos partilhados e consolidando o tecido social ainda antes de conceitos como cidadania, direitos ou deveres existirem.

Podemos afirmar, assim, que em Biblioterapia, não é apenas o livro que importa. É a linguagem, de preferência aquela que é simbólica e metafórica, a que constitui a matéria-prima da ficção, a substância catalisadora das histórias, sejam elas lidas, ouvidas ou dramatizadas.

E podemos afirmar, também, que na oralidade já cuidávamos de nós e dos outros. Em Biblioterapia, o termo terapia remete para uma visão abrangente do acto de cuidar, que não é território exclusivo da ciência médica. Não falamos de tratamento ou cura num sentido estrito, mas sim de um exercício de prospecção da vida emocional do ser humano através das histórias, numa lógica de prevenção e de potencial ajustamento ou mudança de atitudes e comportamentos, contribuindo para um bem-estar global: físico, mental, emocional, intelectual, social e espiritual. Falar de Biblioterapia é falar constantemente da dialéctica entre saúde e humanização.

“Nos lugares onde houver pessoas de qualquer faixa etária, género, etnia, religião, condição social, económica ou cultural a prática biblioterapêutica é possível.”

Sobre estas noções ancestrais assenta o esforço recente, a partir da segunda metade  século XX, para estabelecer os fundamentos teóricos da Biblioterapia e as bases da sua aplicação prática. Paulatinamente, a Biblioterapia tem vindo a sair do ambiente estritamente académico — onde foi beber aos saberes da Literatura, da Filosofia, da Antropologia, da Sociologia, da Psicologia e das Ciências Médicas, entre outros — para chegar ao dia-a-dia dos cidadãos  — nas bibliotecas, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas empresas, nas nossas casas. Enfim, nos lugares onde houver pessoas de qualquer faixa etária, género, etnia, religião, condição social, económica ou cultural a prática biblioterapêutica é possível.

Das muitas definições de Biblioterapia que já foram propostas por pesquisadores de várias partes do mundo, a minha preferência vai para as seguintes:

“A Biblioterapia é um processo de interação dinâmica entre a personalidade do leitor e a literatura, de carácter psicológico e que contribui para o ajustamento e desenvolvimento do ser humano.” Definição proposta pela norte-americana Caroline Shrodes em 1949, naquela que é a primeira tese de doutoramento em Biblioterapia alguma vez defendida.

“A Biblioterapia é o cuidado com o desenvolvimento do ser mediante a leitura, narração ou dramatização de histórias”. Definição proposta em 2010 pela professora e investigadora brasileira Clarice Caldin, também ela doutorada em Biblioterapia.

Hoje, as tecnologias ao nosso dispor permitem-nos confirmar que o cérebro humano simula as histórias que lê, ouve e vê. Assim sendo, as histórias constituem um verdadeiro laboratório onde cada um vai poder descortinar o que está entre as linhas e ir para além dessas linhas dessas histórias; onde, depois de observar personagens e enredos, vai poder levantar novas hipóteses e eventualmente experimentar mudar o seu pensamento, as suas atitudes e os seus comportamentos.

“Porque uma parte da identidade ou personalidade do ser humano é impermanente, através das histórias podemos experimentar ser outro”

Com a ajuda de uma história escolhida criteriosamente pelo mediador de leitura ou biblioterapeuta, o leitor, ouvinte ou espectador, de uma forma autónoma, subjectiva e existencial, rompe o seu enclausuramento, é transportado para além de si e inicia um movimento de transcendência e de abertura ao mundo que o rodeia através das palavras dos outros, que dinamizam o seu universo psíquico e lhe oferecem novas possibilidades de ser dentro da sua realidade quotidiana.

Porque uma parte da identidade ou personalidade do ser humano é impermanente, através das histórias podemos experimentar ser outro, pormo-nos no lugar do outro, entender as suas razões, os seus argumentos, as suas justificações e, mediante uma introspecção e reflexão consciente, discernir: isto faz ou não sentido para mim ou para a minha comunidade? Se eu mudar este aspecto do meu pensamento e do meu comportamento, pode a minha vida e a vida dos meus concidadãos ser mais harmoniosa hoje e no futuro? Que características dos personagens com quem me identifico posso assimilar para benefício individual e colectivo? E que “defeitos” posso projectar noutros personagens de forma a sentir-me mais compreendida, menos só e aliviada? Que ferramentas nos emprestam estes seres das histórias para lidarmos melhor com as circunstâncias das nossas vidas e desenvolvermo-nos continuamente?

Em Biblioterapia, as mudanças que abraçamos quando estimulados pelas histórias alicerçam-se em múltiplas formas de diálogo: o diálogo interno, do leitor, ouvinte ou espectador consigo mesmo; o diálogo altamente subjectivo e de carácter existencial que cada um estabelece com as histórias; o diálogo com o mediador de leitura, que seleciona as histórias com um determinado objectivo e dinamiza a prática biblioterapêutica escutando atentamente o que cada um tem para dizer e sem fazer juízos de valor; e o diálogo respeitoso com outras pessoas expostas às mesmas histórias. Não há Biblioterapia sem diálogo, à semelhança do que deve acontecer no exercício da cidadania.

“A Biblioterapia, como prática altamente criativa e flexível, pode contribuir de forma valiosa na educação para a cidadania.”

Estudos e investigações têm vindo a revelar uma lista vasta de benefícios que resultam da interacção com histórias na óptica da Biblioterapia. Por exemplo: permite que nos conheçamos melhor, amadurecer, experimentar emoções e sentimentos em segurança, verbalizar e exteriorizar problemas, entender que os problemas são universais e aprender a lidar com eles, treinar a empatia, aumentar a autoestima, reduzir a timidez e a sensação de solidão, comunicar melhor e socializar mais, estimular a criatividade, espoletar novos interesses, manter a saúde mental e emocional.

Por tudo isto, a Biblioterapia, como prática altamente criativa e flexível, pode contribuir de forma valiosa na educação para a cidadania. Ler uma história para me abrir aos outros, descobrir como a minha cultura dialoga com as suas, entender e aceitar as diferenças e perceber o absurdo dos radicalismos; ouvir uma história para treinar a minha capacidade empática, experimentar a discriminação na segurança da minha imaginação para depois rejeitá-la na realidade, abrindo caminho à tolerância, à igualdade; ver uma história para viajar até tempos e lugares onde os direitos humanos não existem ou onde são respeitados na sua plenitude e entender o quanto essas realidades distintas impactam a qualidade de vida de cada um; ler uma história para compreender que sou uma peça na cadeia dos ecossistemas e que o meu bem-estar, a minha saúde e a saúde da minha comunidade dependem da manutenção dos seus equilíbrios; aceitar as histórias que me são oferecidas como um gesto amoroso de cuidado, de carinho, de afecto, como algo que aprofunda o conhecimento de mim e dos outros, que me humaniza, que nos humaniza; ganhar-lhe o gosto e passar a oferecer histórias também.

É isto que defendo que a Biblioterapia e a leitura na óptica da Biblioterapia podem fazer por qualquer cidadão, hoje e no futuro.

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2 thoughts on “Contributos da Biblioterapia para a Cidadania

  1. Olá Biblioterapeuta! Participei, faz pouco tempo, num workshop seu “Dos 0 aos 12” e fiquei encantada consigo! Sem saber, já a seguia por esta via.
    Quantas vezes experimentei ser outra através dos livros!
    Felicidades

    Gostar

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