O que aconteceu em Janeiro

Não gosto do Inverno e sei que o mês de Janeiro apanha por tabela. Suporto Dezembro por causa do Natal e da passagem de ano, embora a minha tolerância aos exageros do espírito festivo — demasiadas solicitações, demasiadas compras (muitas desnecessárias), demasiado ruído real e metafórico, uma certa obrigação de estar-se alegre — tenha vindo a diminuir. Mas adoro a noite da consoada e o dia de Natal com a família. Por isso, vivo o último mês do ano com o foco nesses momentos. A passagem de ano é sempre uma ocasião para balanços, introspecções e algumas promessas realistas feitas a mim mesma, um ritual esperançoso a que me tenho afeiçoado. Depois, chega Janeiro, árido, sombrio, frio e chato, associado, na minha psique, ao esforço do recomeço — vamos lá, empurrar esta pedra, de novo, um mês de cada vez, até ao topo da montanha!

Porém, em 2025, Janeiro chegou com outro tom. Sim, foi frio e tempestuoso, mas chamar-lhe chato e árido seria desonesto. Os dias passaram, velozes e ricos, ao ritmo:

— Dos Círculos de Biblioterapia quinzenais na Escola Henriques Nogueira, em Torres Vedras (que vão continuar em Fevereiro);

— Das sessões semanais de Biblioterapia Criativa com um grupo de doentes internados no Hospital Magalhães Lemos, no Porto (que continuarão até Junho);

— Da redacção das bulas para a Farmácia Literária da Bertrand Livreiros, um projecto que vai para o seu sexto ano de existência;

— Da preparação de um eBook sobre os Círculos de Biblioterapia que dinamizei nas escolas portuguesas entre 2022 e 2024, baseado nas conclusões que apresentei no 1.º Congresso Europeu de Biblioterapia, no dia 5 de Outubro de 2024, em Budapeste. Este eBook será divulgado em breve. Os interessados devem manter-se atentos;

— Da moderação do Clube de Leitura d’ a biblioterapeuta e redação do relatório com o resumo de cada encontro (vejam, mais abaixo, os livros que os membros do clube apresentaram);

— Da frequência do curso “O Que Faz Um Bom Livro”, promovido pela Academia do Plano Nacional de Leitura e exemplarmente ministrado por Maria do Rosário Pedreira (aproveitem para clicar no link e ver os outros cursos disponíveis);

— De muitas conversas e reuniões a propósito de novos projectos biblioterapêuticos que foi preciso colocar no papel. Felizmente, as solicitações chegam a bom ritmo;

— Dos livros que li (vejam, mais abaixo quais).

RETIRO DE LEITURA 2025

Ainda há 2 vagas para o Retiro de Leitura que acontecerá em Minde, no Retiro do Bosque, nos dia 11, 12 e 13 de Abril. O programa detalhado do retiro está disponível aqui. Em breve o/a autor/a convidado será anunciado/a.

OS LIVROS DO CLUBE DE LEITURA D’ A BIBLIOTERAPEUTA

Neste clube de leitura cada um lê o que lhe apetece e raramente são definidas temáticas que orientem as escolhas dos livros (creio que, em mais de quatro anos de encontros mensais, aconteceu três vezes). Mas, na recta final de 2024, achámos que precisávamos todos de uma injecção de esperança para encarar o novo ano e, assim, de forma excepcional, decidimos que os livros a apresentar deveriam remeter para esse tema. Estas foram as escolhas dos membros do clube:

A lenda do santo bêbedo“, de Joseph Roth

Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo“, de Haruki Murakami,

Dream work“, de Mary Oliver

El espíritu de la esperanza“, de Byung-Chul Han

Esperar contra toda a esperança“, de José Tolentino Mendonça,

Etty Hillesum: uma vida transformada“, de Patrick Woodhouse

Frágil“, de Jenny Lawson

Haja luz“, de Jorge Calado

Mártir“, de Kaveh Akbar

O café dos gatos“, de Ana Sólyom

O diário de Anne Frank“, de Anne Frank

O homem em busca de um sentido“, de Viktor E. Frankl

O livro da esperança“, de Jane Goodall

O que procuras está na biblioteca“, de Michiko Ayoama

O regresso a Reims“, de Didier Eribon

Para lá do Inverno“, de Isabel Allende

Pequenas coisas como estas“, de Claire Keegan

The bookshop of the broken hearted“, de Robert Hillman

Tudo do amor“, de bell hooks

Um cão no meio do caminho“, de Isabela Figueiredo

AS MINHAS LEITURAS

Apesar das solicitações profissionais, li bastante em Janeiro. E reli bastante, também. Curiosamente, em Fevereiro, no dia 5, celebra-se o Dia Mundial da Leitura em Voz Alta e, em Janeiro, reli em voz alta, para grupos distintos, dois livros que me são muito querido e que considero muito biblioterapêuticos: “O Pedaço Que Falta”, de Shel Silverstein, e “O Homem Que Plantava Árvores”, de Jean Giono.

Na categoria dos livros infantojuvenis li “A Luz da Noite de Natal”, de Marie Voigt, óptimo para aliviar estados de melancolia e reagir perante sentimentos de isolamento; “Vou Ter Um Irmão”, de Yumi Shimokawara, indicado para ajudar irmãos mais velhos a gerir frustrações e impaciências; e “Juntos”, de Luke Adam Hawker e Marianne Laidlaw, que aborda os impactos sociais da pandemia por COVID-19, apostando numa mensagem esperançosa, fruto da resiliência e da solidariedade das quais o ser humano vai sendo capaz. As ilustrações são excelentes e cada página é uma pequena obra de arte.

Na categoria dos “livros para os mais velhos” li “O Silencieiro”, de Antonio di Benedetto, uma leitura muito difícil para mim, pelo fortíssimo grau de identificação com o personagem principal, um homem que vive atormentado pelos ruídos da cidade. Na história ninguém o entende como eu o entendi, mas a leitura acarretou desconforto e ansiedade — sobretudo perante a impunidade de quem produz os ruídos com egoísmo e leviandade —, o que me levou a parar a leitura por uns dias. Há excertos do livro que correspondem com uma exactidão espantosa a episódios que eu mesma já vivi e cuja recordação provocou alguma dor emocional. É uma história fora do comum, muito bem escrita, que explora angústias existenciais que vão para além da repulsa ao ruído, mas que são explicadas, em parte, pelo sofrimento físico e psicológico que este causa. O fenómeno é explorado até ao exagero e com consequências imprevisíveis. Li, também, “A Minha Irmã é Uma Serial Killer”, de Oyinkan Braithwaite, um pequeno romance que nos leva até à vibrante cidade de Lagos, capital da Nigéria, e nos impõe sérios dilemas morais; e “Elogio da Literatura”, de Northorp Frye, um ensaio originalmente publicado em 1963. É um texto que vos recomendo com entusiasmo, sobretudo a quem se interessa por línguas e linguagem, um tema que pretendo aprofundar nos próximos tempos. Porém, fruto das tecnologias que ainda não existiam à época para ver o cérebro a funcionar em tempo real enquanto se lê (Ressonância Magnética Funcional), creio que autor tece comentários limitados quando ao impacto da literatura nas nossas vidas. Mas não deixem de ler o texto que, na sua maioria, continua válido, está bem escrito e articulado, ensina e inspira.

Para além disto, estou a ler outros dois livros: ao deitar “O Caminho do Artista”, de Julia Cameron, que obriga a seguir um programa de 12 semanas, com vários exercícios por cumprir para derrubar bloqueios inconscientes e estimular o fluxo criativo. Honestamente, acho o texto fraquinho, às vezes disparatado. Os exercícios que propõe parecem-me ineficazes (como passar uma semana inteira sem ler, o que não fiz, como é óbvio!), mas vou persistindo. A única coisa que está a ter um impacto enorme da minha vida é a escrita das páginas matinais. Todas as manhãs, ao acordar, a primeira coisa que devo fazer é escrever três páginas à mão acerca do que me ocorrer, num momento em que ainda me encontro na fronteira entre o sono, o sonho e a lucidez. Estou a adorar este exercício de tal forma que adormeço a antecipar o prazer que a escrita me dará na manhã seguinte; e, ao acordar, depois da redacção das páginas matinais, tenho lido “A Noite Abre Meus Olhos”, de José Tolentino Mendonça, que estava há algum tempo na minha mesa de cabeceira à espera da minha atenção a sério (que não fosse folheá-lo de vez em quando). Foi aí que encontrei este poema:

Existo sem pressa

maturo em lides e demoras

aprendo a incompletude

Adoptei-o como mantra e são as primeiras palavras que escrevo em cada entrada das minhas páginas matinais. Vêm ao encontro de uma mudança que fui implementando, devagar, nas minha vida — as manhãs lentas, silenciosas e investidas no meu bem-estar, exercício físico incluído. Apesar do sentimento de culpa que ainda me assalta (“Devias estar agarrada ao computador, Sandra!”), a verdade é que algo significativo mudou em mim, como se se tivesse fechado uma fissura. Pergunto-me até quando terei o privilégio de viver esta rotina tão pacificadora.

O QUE FEVEREIRO TRARÁ

Fevereiro trará a minha primeira participação nas Correntes d’Escritas como convidada deste festival literário. Após mais de vinte anos a seguir e a assistir ao evento, saio da plateia e ocupo o palco, juntando-me aos outros protagonistas na qualidade de biblioterapeuta e formadora. Assim, nos dias 18 e 19 de Fevereiro, estarei a dinamizar uma oficina com o título “Diluir Fronteiras, aproximar culturas: a biblioterapia como lugar de encontro”, uma vez que o tema da 26.ª edição do festival é, precisamente, o encontro. Podem saber mais aqui.

No dia 22 de Fevereiro regresso ao mesmo festival literário para o lançamento da nova edição da revista “Palavrar – ler e escrever é resistir” com a qual colaboro desde o primeiro número. A sessão decorrerá no Cine-Teatro Garrett, às 15h. Farei a leitura pública da minha crónica, cujo título é “Diz-me o que ouves” (que será divulgada também neste blogue daqui a uns dias).

MUDANÇAS NAS REDES SOCIAIS

Janeiro também foi o mês em que anunciei a minha saída, devagarinho, do Facebook e do Instagram. As contas ficam activas mas, a partir de determinada altura, não serão mais alimentadas com conteúdos novos.

Agora encontram-me no BLUESKY. Espero ver-vos por lá, sinceramente, para que não percamos o contacto. Eu vou pesquisando alguns dos vossos nomes para seguir-vos também, mas ainda há muita gente que não encontro ali. Continuarei no LinkedIn e estou a ponderar reinvestir no YouTube. Esta decisão tem na sua base valores éticos e políticos dos quais não quero prescindir e que exigem alguma coerência (não estaremos quase sempre a vender um bocadinho da nossa alma ao diabo quando aderimos a estas plataformas?). Não quero continuar a contribuir para a fortuna de pessoas com comportamentos perigosos. Espero que compreendam esta decisão.

@sandrabaraonobre.bsky.social

@abiblioterapeuta.bsky.social

LinkedIn – Sandra Barão Nobre

Youtube – @abiblioterapeuta

Até breve! Boas leituras!

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